segunda-feira, 24 de maio de 2010

O movimento dos sem tela


Nelson Mota

“O Franklin Martins teve uma sacada muito grande… o Estado brasileiro garantir banda larga de graça para o povo. Se isso acontecer, todos os entendidos no assunto dizem: acaba a televisão aberta no Brasil. Porque o sujeito vai ter na tela do computador, de graça, qualquer televisão do mundo. Então, pra que ficar assistindo lá àquele casal maravilhoso das oito e meia? (…) Então eles estão de cabelo em pé, com medo de que a Dilma ganhe e implante a banda larga estatal popularizada.” São reflexões de João Pedro Stédile, a cabeça pensante do MST. Com aliados assim, será que a Dilma precisa de adversários? Que entendidos são esses? Cubanos? Venezuelanos? Dos Emirados Sáderes? Lá no “Império”, no Japão e em partes da Europa quase todo mundo tem banda larga, e há décadas a TV aberta perde espectadores, sim, mas para os canais por assinatura — que não podem ser vistos de graça na internet. Mas os milhões que assistem ao casal maravilhoso das oito e meia também já podem vêlo no celular e no laptop, além da boa e velha TV, agora em alta definição, e breve em 3-D.
E de que serviriam todas as televisões do mundo para quem não entenderia as línguas e nem conseguiria ler as legendas, se as houvesse? Mesmo com banda larga de graça, eles teriam que escolher entre Globo, SBT, Band, Rede TV e Record, ou a RTP afro-lusitana, já que a TV Brasil ninguém vê.
Vamos contar um segredo a ele: os maiores interessados na universalização da banda larga são as grandes empresas de comunicação, produtoras de conteúdo para TV aberta, a cabo, celular, internet e o que mais vier.
Desconfio que o arguto Stédile entendeu mal esta “grande sacada do Franklin Martins”, que pode até ser polêmico, mas de burro nunca foi chamado.
Pensando bem, a sacada pode ser muito boa. Para Cuba. Se lá universalizarem a banda larga a ditadura não dura uma semana.
Mas, francamente, imaginar José Serra de cabelo em pé só pode ser um delírio. Talvez o companheiro Stédile estivesse pensando em outro José, o neocabeludo Dirceu, este sim, um grande interessado na banda larga estatal: os fios justificam os meios.
*Nelson Mota é escritor,compositor e jornalista

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